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Singing in the rain

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Olé Tour: debaixo de chuva, Rolling Stones se despedem do Brasil em noite histórica em Porto Alegre

 
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ImprimirReportar erroTags:texto, festivo, run, make, before, favoritas, minhas e silver1183 palavras17 min. para ler
Singing in the rain
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Texto: Márcio Grings*  Fotos: Duda Bairros


É fácil perceber quando estamos participando de um evento histórico. Lembro-me perfeitamente de alguns desses momentos que vivenciei em minha vida de música e cobertura de shows. Mas poucas recordações chegaram perto da apresentação da última quarta-feira em Porto Alegre. Debaixo de chuva, e com cerca de 50 mil espectadores, a Olé Tour se despediu do Brasil em um concerto memorável na Capital gaúcha. E vale o bordão: foi ‘de lavar a alma!’
Lembro-me de uma propaganda de TV que rolou durante a primeira passagem do grupo em turnê pelo Brasil, em 1995. “Jumping Jack Flash” era  a música que embalava o spot comercial. E pouco mais de 20 anos depois, o primeiro show em terras gaúchas começa com Keith Richards esgrimindo sua guitarra e coreografando movimentos inimitáveis ao som do riff dessa mesma música. 

Simultaneamente, as luzes se acendem e assim nos vemos frente às lendas do rock. 

Pra início de conversa temos no palco uma das duplas mais respeitadas da música mundial: “Mick é o ROCK. Eu sou o ROLL”, disse Keith em uma de suas entrevistas. Sim, uma síntese do gênero musical mais influente da cultura POP. Minha atenção inicial é para eles. Por isso, nada melhor que “It’s Only Rock’N’Roll”, perfeita demonstração dessa química indivisível. Além disso, surge também um dos componentes definidores do espetáculo em Porto Alegre: a chuva.
Assim, a banda inicialmente se concentra mais ao centro do palco, com os músicos dando a impressão de estarem tentando escapar dos primeiro pingos de chuva. Menos Mick, que relembra Gene Kelly no clássico filme “Cantando na Chuva“. E como um Airton Senna matando a pau numa pista molhada, Mick mostra que também é bom na chuva! Em nenhum momento ao longo da apresentação ele busca refúgio ou parece se importar com o tablado molhado ou roupas úmidas. Em “Tumbling Dice” podemos perceber os backings de Bernard Fowler e Sasha Allen na linha de frente, com destaque para o característico cruzamento das guitarras de Keith e Ronnie Wood. 

“Out of Control”, uma música sombria e sexy, extraída do álbum “Bridges To Babylon (1998), cresce absurdamente ao vivo, principalmente pelo clima propício ao duelo entre a gaita de Mick e a guitarra de Keith. E o público a recebe muito bem, foi o que podemos constatar em grande parte das apresentações da turnê.   
“Let’s Spend The Night Together” é o tema escolhido pelo público na votação pelo site da banda. Numa versão mais lenta, esse sempre foi um dos grandes momentos ao vivo dos Stones, além de emblema perfeito para seus shows em grandes estádios. Logo depois surge a grande surpresa da noite, a balada “Ruby Tuesday”, justamente o Lado B do single que tinha no Lado A “Let’s Spend The Night Together”.  Pela primeira vez na Olé Tour, esse foi o presente do grupo a Porto Alegre.

Em “Shine A Light”, documentário de Martin Scorcese sobre os Stones disponível no Netflix, uma mesma pergunta é lançada a Mick e Keith: “O que você faz antes de se apresentar diante de milhares de pessoas?”. Keith responde: “Eu acordo”. Mick diz: “Eu geralmente digo a mim mesmo – trate de fazer um bom show”. Essa intenção define a energia e vigor durante todo a noite em Porto Alegre. Isto é o que esperamos de o líder de uma banda. Um símbolo dessa marca do vocalista pode ser visualizado em “Paint It Black”, puxada pela batida inconfundível de Charlie Watts em sua bateria Grestch. Ao mesmo tempo em que a chuva aperta ainda mais, a catarse coletiva parece ganhar mais adesões. 

E temos um mestre de cerimônias. Aos 72 anos, ele não nos decepciona, tanto no quesito interpretação, quanto na intensa movimentação de palco. É o velho Mick que conhecemos. E novamente ele dá claras demonstrações de que estuda as peculiaridades de cada cidade que visita. O vernáculo local surge em frases como “vocês são tri-foda”, “e aí gurizada” ou “ouvi dizer que aqui estão as gurias mais bonitas do Brasil. É verdade, guris?“, frases que levam a loucura o público no Beira-Rio.  

E a festa continua com o clima hedônico e sempre festivo de “Honky Tonk Women”. Após a apresentação dos integrantes da banda por Mick, no momento solo de Keith Richards, o guitarrista canta “You Got The Silver” (e uma das minhas favoritas desde sempre) e “Before You Make Me Run”. Eu desejei “Happy“ como segunda música, infelizmente não foi dessa vez... 

Em constante troca de figurino, com adesão de uma providencial e elegante capa de chuva, Jagger volta ao palco ressoando sua harmônica para um dos melhores momentos da noite. A cada apresentação, a interminável “Midnight Rambler” pode soar peculiar e única. É quando fica fácil perceber que grande banda de blues os Stones podem ser. Há margens para novas aberturas, com Mick  regendo o público enquanto a banda responde com improvisações. Entre uma baforada de cigarro de Keith, olho no olho com Ronnie, uma das melhores duplas de guitarristas do rock mostra que junta ele é imbatível. 

E quando o restante dos Stones também resolvem passear pela passarela (menos Charlie, preso a sua bateria). Assim, ninguém mais se importa com a chuva. A exemplo de seus heróis, o público é incitado a aceitar a intempérie como uma autêntica benesse. “Obrigado Porto Alegre por uma noite inesquecível na chuva!“, disse os Stones pelo Facebook.

O setlist segue no ritmo de autocelebração e sobrecarregado de hits. “Miss You” é mais um daqueles encontros íntimos entre o público e Mick, um convite a incitação da massa, com destaque para o solo do baixista Daryl Jones; já em “Gimme Shelter” a vocalista Sasha Allen também é conduzida por Mick a tomar banho de chuva, além de revelar todo o poderio interior redigido por sua garganta; 

”Start Me Up”, deslocada da abertura para a parte final do concerto, consegue deixar o clima ainda mais nas alturas;  “Sympathy For The Devil” invoca um contagiante ritmo tribal pontuado pelos ``uu-uhus“ da audiência em ponto de bala; e “Brown Sugar” é simplesmente um dos maiores hinos do rock, unanimidade absoluta num set dos Stones. Uma áurea de celebração toma conta do Beira-Rio.

No bis, parte do coral da PUC dá suporte para uma das prediletas do grupo, “You Can’t Always Get What You Want”. É quando a chuva quase vira temporal. Nesse momento tenho a certeza que estou prestes a congelar de tanto frio. Porém, com a roupa completamente encharcada, “Satisfaction” reacende a chama da vida em qualquer alma vivente e amante do rock, naquele que é um dos maiores manifestos contra o descontentamento de um indivíduo.

Próximas paradas da Olé Tour: Lima (6), Bogotá (10)e Cidade do México (14 e 17), além do concerto gratuito em Havana, no próximo dia 25 de março. Prestes a completar 54 anos de atividade, os Rolling Stones parecem intermináveis e incansáveis. Aguardem cenas dos próximos capítulos.


Ah, ia esquecendo o principal! Obrigado Mick, Keith, Ronnie e Charlie. Tomei um dos maiores banhos de som e de chuva da minha vida.

*Márcio Grings é jornalista, radialista, escritor e pesquisador de cultura pop.


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